sexta-feira, 23 de julho de 2010

um texto sobre paixões - uma introdução

ninguém escolhe suas paixões. elas simplesmente acontecem. quando você percebe, já não tem mais volta. está envolvido, preso, capturado por alguma coisa que é maior parte imaginação, menor parte realidade. muito da sua personalidade, das suas decisões e do seu caráter é derivado de como você se relaciona com elas. não estou falando de estar bem ou estar mal, de estar feliz ou estar triste, mas de o que está envolto nisso tudo, nas causas e consequências, nas entrelinhas existentes em cada olhar, em cada reação, em cada volta pra casa.

nunca tive muita sorte com as minhas paixões. o cinema e a literatura são caros e, como o que eu escolhi pra viver, dificilmente vão me dar muito conforto. as mulheres, apesar de alguns relacionamentos que por um tempo foram bem-sucedidos, nós sabemos que serão sempre passageiras e deixarão muitas marcas. as bebidas e os cigarros ainda vão acabar me matando. porém, a intenção aqui não é falar de nenhuma delas. é falar das paixões que não te abandonam. que estando no chão, afundadas, no seu estado mais deprimente, não te deixam dormir direito, mas você acordará pensando em como a recuperação pode acontecer, por quais meios, lembrando de hinos e de bandeiras, de fatos gloriosos do passado, de como você gritou e sorriu em outras situações e tem a pequena certeza que tudo se consertará - como eu disse lá em cima, paixões são mais imaginação que realidade.

estou aqui para falar de esportes. nada mais apropriado que começar falando de paixões. e, por mais que o esporte como um todo seja uma, todos sabemos que existem as horas, as cores e os símbolos pelos quais o coração realmente dispara e que te causam as mais diversas reações. todos sabemos que existem paixões dentro da paixão que são provavelmente as maiores que se conhecerá.

eu não faço idéia de quando me tornei palmeirense. nas primeiras lembranças que tenho da minha vida, o alviverde já está fundamentalmente presente - com três ou quatro anos, criando campeonatos imaginários de futebol nos quais o palmeiras sempre era campeão e goleava todos os adversários, vestindo uma camisa quase maior que eu, comemorando gols com meu pai me jogando pra cima. eu mal sabia que, no mundo real, um título não vinha há dezesseis anos.

mas o fato é que não cheguei a viver a época da fila, já que são poucas e quase irrisórias as lembranças antes do título paulista de 1993 e o início de uma era absolutamente gloriosa que me garantiu uma infância completamente feliz em relação à paixão principal. na escola, todos os desenhos ou redações eram sobre o palmeiras. campeão sempre, praticamente todos os anos, um motivo de imenso orgulho, interminável alegria de estufar o peito e dizer "eu sou palmeirense". seguimos a vida. eu não entendia muita coisa de táticas, de condições financeiras, de qualidade dos jogadores. quando você é criança, sabe que precisa gritar gol, tirar sarro dos adversários e comemorar os títulos.

é um pequeno mundo ilusório muito divertido, e ser criança palmeirense na década de 90 foi uma experiência fundamental de construção de caráter.

mas, mais ainda, foi ser um adolescente palmeirense nos anos 00. com o rebaixamento, com as lágrimas de cada derrota, de cada eliminação para os maiores rivais, da seca de títulos entaladas na garganta, com todas as indignações por cada erro de alexandre bocão, misso, rovílson, adriano chuva absolutamente exprimidas em gritos de repulsa. entender o que é amor de verdade quando você começa a se envolver com pessoas nesse sentido. o palmeiras era o amor inicial, onde tudo surgia. eu seria um homem mimado e ignorante que nunca entenderia como lidar com uma garota sem esse fracasso retumbante dos anos 00.

mas você aprende a ser paciente, a retribuir, a aceitar as poucas vitórias e a ser mais feliz com elas. sem, nunca, deixar a esperança de que os velhos tempos voltarão.

e as coisas se tornam piores ainda quando você nunca conheceu os velhos tempos. não diria piores, na verdade. talvez mais poéticas, mais retumbantes, mais irônicas.

como no dia que, conhecendo aquele esporte estranho que os norte-americanos tanto gostavam, vi um jogo no qual um dos times vestia um uniforme prateado e preto. não sabia a maioria das regras daquele esporte, nem nada sobre nenhum dos times, mas havia gente fantasiada de pirata nas arquibancadas, de outras coisas ainda mais absurdas e assustadoras, e além disso esse time tinha um nome muito legal - "raiders". nada disso seria minimamente suficiente para que eu me apaixonasse por ele. o que me pegou de verdade foi a raça absurda que os jogadores em campo demonstravam, a vontade de vencer o rival - que, explicavam os comentaristas, não eram vencidos há um bom número de confrontos - e como a torcida empurrava, enlouquecida, aquela esperança. os piratas gritavam pelos seus raiders, pelos seus ídolos vestidos de prateado e preto. e, obviamente, aquela partida foi perdida.

eu nunca vi o oakland raiders ter uma temporada vitoriosa. desde que acompanho futebol americano, ele sempre teve mais derrotas que vitórias, sendo algumas vezes absolutamente humilhantes. o quarterback durante anos foi um gordo preguiçoso incapaz de fazer qualquer lançamento com o mínimo de precisão. mesmo assim, eu aprendi jogo a jogo a adotar esse time prateado e preto como outra paixão, que nunca vencendo, nunca sendo glorioso no presente, tinha sim um passado recheado de títulos e conquistas, era fruto do sonho de um homem, um antigo visionário, de nunca se curvar às vontades de ninguém. e era motivo de imenso respeito por onde passava, mesmo com todas as suas tragédias internas.

a idealização é anterior ao conhecimento. é anterior à realidade. torcer para os raiders voltarem a um passado que eu nunca vi. uma sina de derrotas.

e por fim, o baseball. do time azul e branco de los angeles, o time de fernando valenzuela, de sandy koufax, de don drysdale, de tommy lasorda. o time de jackie robinson. e, mais uma vez, a estória se repete: um time que eu nunca vi vencer. talvez aqui seja até mais doloroso que no caso dos raiders, já que aparecem bons times quase sempre, a chegada até os playoffs é frequente - ou tem sido nos últimos anos, pelo menos - mas os títulos também insistem em não aparecer.

ter a esperança concreta talvez seja muito pior que não tê-la. isso vale para qualquer tipo de paixão.

e minha relação com os esportes sempre foi de perda. de derrota. de entendimento. de olhares de conformismo, reações exacerbadas, de expectativa. não sei o quanto isso me faz uma pessoa melhor ou não. provavelmente nada.

mas o fato é que a minha vida toda é carregada de todos esses sentimentos. e talvez, a vida de todo mundo.

2 comentários:

  1. bom texto carlos!
    nada mais justo que criar um blog sobre uma das únicas paixões que nos segue pela vida toda!

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  2. Carlos, como disse terá um leitor rotineiro neste espaço. Esta é minha primeira grande paixão. Cara, se precisar de alguma colaboração ou coisa assim, é só falar.

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